Cetic.br reúne especialistas nacionais e internacionais para debater desafios da produção de estatísticas na era da inteligência artificial
Notas
01 SET 2026

16ª edição do Annual Workshop on Survey Methodology discutiu novas fontes de dados, governança de dados, cibersegurança, economia digital e o uso de IA e linguagem de máquina no contexto de atuação dos produtores nacionais de estatística
São Paulo, 01 de Setembro de 2026 – Os impactos da inteligência artificial (IA), a incorporação de novas fontes de dados e os desafios de assegurar a qualidade e a confiabilidade das estatísticas em um ecossistema digital em rápida transformação estiveram no centro dos debates da 16ª edição do NIC.br Annual Workshop on Survey Methodology, realizada de 24 a 27 de agosto, em São Paulo (SP).
Promovido pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), em parceria com a Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e a Sociedade para o Desenvolvimento da Ciência (SCIENCE), o encontro reuniu especialistas de institutos nacionais de estatística, academia, ministérios, reguladores e organizações internacionais.
Na abertura, Demi Getschko, diretor-presidente do NIC.br, ressaltou a trajetória do Cetic.br na produção de informações para o apoio à tomada de decisão: "O Cetic.br tem mais de 20 anos de atuação na realização de pesquisas e na produção de resultados confiáveis e internacionalmente comparáveis, que ajudam a orientar políticas públicas no Brasil". O gerente do Cetic.br, Alexandre Barbosa, destacou que as mudanças tecnológicas exigem maior cooperação entre os produtores de dados: "Vivemos um momento de rápida transformação digital como resultado da adoção das novas tecnologias, sobretudo da inteligência artificial, com grande impacto na produção de estatísticas. Nesse cenário, não há outra saída a não ser colaborar, compartilhar experiências e construir juntos soluções robustas. Isso nos leva, cada vez mais, à necessidade de cooperação entre instituições", afirmou.
As novas fontes de dados utilizadas na produção de estatísticas oficiais foi abordada Pela Professora Elisabetta Carfagna, da Universidade de Bolonha (Itália). A professora discutiu como informações provenientes de bases administrativas, imagens de satélites, Internet e outras fontes podem complementar pesquisas tradicionais, desde que acompanhadas de métodos para avaliar qualidade, cobertura e representatividade. A partir de exemplos práticos, a especialista apontou que a integração de diferentes fontes impacta os resultados mais do que a complexidade dos algoritmos de aprendizado de máquina. "As estatísticas oficiais já não detêm a centralidade exclusiva na produção de informações sobre a sociedade. Hoje, diferentes fontes de dados e produtores de informações coexistem e disputam atenção, legitimidade e confiança. Nesse novo contexto, a função das estatísticas oficiais continua sendo oferecer à sociedade conhecimento confiável sobre si mesma. A razão de existir desse sistema estatístico permanece válida, mas suas formas de produção, disseminação e interação com os usuários precisam ser profundamente transformadas", ressaltou Carfagna.
Na discussão sobre governança de dados na era da IA, Stefaan G. Verhulst, do The Governance Lab (Estados Unidos), abordou as mudanças necessárias diante de sistemas de IA capazes não apenas de produzir inferências, mas também executar ações. Entre as propostas, defendeu uma governança orientada por propósitos, que tenha como ponto de partida perguntas e problemas específicos, em vez de ser determinada exclusivamente pelos dados disponíveis. Essa abordagem permite identificar quais dados são necessários e estabelecer as regras, responsabilidades e salvaguardas adequadas ao seu uso. "Precisamos começar pelas perguntas. É necessário definir qual é a questão e qual é o propósito para, então, determinar quais dados são necessários e como governá-los. Sem especificar o propósito, não é possível fazer uma boa governança", enfatizou Verhulst.
Outro desafio na produção de estatísticas discutido durante o workshop foi a produção de estatísticas sobre cibersegurança. Éireann Leverett, da Universidade de Cambridge (Reino Unido), mostrou que a mensuração do risco cibernético varia conforme a população utilizada como referência. Ao comparar universos como vulnerabilidades, versões de software, domínios, endereços IP, pacotes e volume de dados, a apresentação identificou uma amplitude de cerca de 18 ordens de magnitude entre os universos analisados. Segundo Leverett, não basta contabilizar os eventos: para estimar sua frequência ou probabilidade, é preciso relacioná-los ao tamanho da população analisada. "Para obter uma probabilidade, eu realmente preciso de uma razão. Sem ela, não consigo chegar a uma frequência, não consigo chegar a uma probabilidade", explicou.
As transformações necessárias aos produtores nacionais de estatística foram discutidas por Wesley Yung, ex-diretor do Statistics Canada. Diante da multiplicação das fontes e da demanda por dados com maior detalhamento e rapidez, o especialista abordou a necessidade de incorporar novos métodos e tecnologias, preservando os princípios que sustentam a qualidade e a confiança nas estatísticas oficiais. "O status quo não é uma opção. Precisamos evoluir, mas isso não significa abandonar aquilo que sustenta as estatísticas oficiais. O desafio é aproveitar novas ferramentas sem perder de vista a confiança da sociedade nos dados que produzimos", frisou.
Sobre a programação
A programação dos quatro dias reuniu painéis, tutoriais, estudos de caso, sessões temáticas e um curso de curta duração. Entre os assuntos abordados estiveram o uso de IA e aprendizado de máquina em pesquisas, qualidade em ecossistemas com múltiplas fontes de dados, Indicadores de Universalidade da Internet, integridade da informação, economia digital, infraestrutura digital, mensuração da economia da IA e uso de dados de telefonia móvel na produção de estatísticas oficiais.
As atividades contaram com especialistas de instituições como UNESCO, União Internacional de Telecomunicações (UIT), Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Fundo Monetário Internacional (FMI), Instituto Nacional de Estatísca de Portugal, Federal Statistical Office Germany, The GovLab, e as Universidades de Bologna na Itália, Cambridge no Reino Unido, Michigan nos Estados Unidos.
O NIC.br Annual Workshop on Survey Methodology é realizado desde 2011 pelo Cetic.br|NIC.br, em colaboração com a ENCE | IBGE e a SCIENCE, como espaço de intercâmbio de experiências e desenvolvimento de capacidades entre produtores e usuários de dados, pesquisadores e especialistas, com foco em temas emergentes e inovações metodológicas.
Sobre o Cetic.br
O Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do NIC.br, é responsável pela produção de indicadores e estatísticas sobre o acesso e o uso da Internet no Brasil, divulgando análises e informações periódicas sobre o desenvolvimento da rede no País. O Cetic.br|NIC.br é, também, um Centro Regional de Estudos sob os auspícios da UNESCO, e completa 20 anos de atuação em 2025. Mais informações em https://cetic.br/.
Sobre o Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR – NIC.br
O Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR — NIC.br (https://nic.br/) é uma entidade civil de direito privado e sem fins de lucro, encarregada da operação do domínio .br, bem como da distribuição de números IP e do registro de Sistemas Autônomos no País. O NIC.br implementa as decisões e projetos do Comitê Gestor da Internet no Brasil - CGI.br desde 2005, e todos os recursos arrecadados provêm de suas atividades que são de natureza eminentemente privada. Conduz ações e projetos que trazem benefícios à infraestrutura da Internet no Brasil. Do NIC.br fazem parte: Registro.br (https://registro.br), CERT.br (https://cert.br/), Ceptro.br (https://ceptro.br/), Cetic.br (https://cetic.br/), IX.br (https://ix.br/) e Ceweb.br (https://ceweb.br), além de projetos como Internetsegura.br (https://internetsegura.br) e Portal de Boas Práticas para Internet no Brasil (https://bcp.nic.br/). Abriga ainda o escritório do W3C Chapter São Paulo (https://w3c.br/).
Sobre o Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI.br
O Comitê Gestor da Internet no Brasil, responsável por estabelecer diretrizes estratégicas relacionadas ao uso e desenvolvimento da Internet no Brasil, coordena e integra todas as iniciativas de serviços Internet no País, promovendo a qualidade técnica, a inovação e a disseminação dos serviços ofertados. Com base nos princípios do multissetorialismo e transparência, o CGI.br representa um modelo de governança da Internet democrático, elogiado internacionalmente, em que todos os setores da sociedade são partícipes de forma equânime de suas decisões. Uma de suas formulações são os 10 Princípios para a Governança e Uso da Internet (https://cgi.br/resolucoes/documento/2009/003). Mais informações em https://cgi.br/.
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