Ir para o conteúdo

Cetic.br promove debate sobre educação para a cidadania digital


28 NOV 2018



Alexandre Schneider, Julio Gaitán, Mario Sérgio Cortella e Roxana Morduchowicz participaram de painel na quarta-feira (21/11), mediado por Regina de Assis

Com um debate sobre o "Uso da Internet por crianças e adolescentes: educação para a cidadania digital", o Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) lançou na quarta-feira (21) as publicações das pesquisas TIC Educação 2017 e TIC Kids Online Brasil 2017. Políticas públicas de educação e mídia, defesa dos direitos de crianças e adolescentes, competências e habilidades que devem ser desenvolvidas pelos estudantes, e o uso crítico, seguro e responsável das tecnologias foram analisados por Roxana Morduchowicz, Julio Gaitán, Alexandre Schneider e Mario Sérgio Cortella, sob a mediação de Regina Alcântara de Assis.

Durante a abertura, Demi Getschko, diretor-presidente do NIC.br, destacou a relevância das pesquisas do Cetic.br e das discussões sobre o impacto da Internet para crianças e adolescentes, pontuando também conquistas importantes do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) e do NIC.br como seu braço operacional. Entre elas estão o Decálogo de Princípios para a Governança e Uso da Internet, que completará 10 anos em 2019 e serviu de base para a lei do Marco Civil da Internet, assim como o envolvimento do CGI na recém-sancionada Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, a partir de discussões realizadas durante as nove edições do Seminário de Proteção à Privacidade e aos Dados Pessoais.

Alexandre Barbosa (Cetic.br) lembrou que os temas abordados pelas pesquisas TIC Educação e TIC Kids Online Brasil são complementares e relevantes para o cenário atual, caracterizado por profundas transformações decorrentes da adoção das tecnologias digitais. "Os impactos podem ser observados nas interações sociais mediadas pelas tecnologias e na construção das identidades dos indivíduos. Esse cenário gera novas demandas para a educação e as políticas públicas. As escolas são chamadas a incluir no currículo o desenvolvimento de habilidades digitais, a melhor compreender a relação entre tecnologia e educação e a lançar mão de metodologias ativas que aprimorem o processo de ensino e aprendizagem. Pais, educadores e gestores possuem uma grande responsabilidade", afirmou Barbosa, que apresentou indicadores que subsidiaram o debate sobre oportunidades e riscos on-line para crianças e adolescentes, sobre cidadania digital na escola, a interação entre professores e alunos sobre uso seguro da Internet, entre outros temas.

Roxana Morduchowicz, especialista argentina em Educação e Mídia, chamou a atenção para as políticas de educação que instalaram computadores e dispositivos móveis nas escolas, porém enfatizou a necessidade de ensinar sobre seu uso responsável. "O que mais me preocupa são as práticas. No momento em que o acesso à Internet está mais difundido, devemos pensar em como as crianças e os adolescentes estão usando a rede, em como podemos fortalecer o uso seguro, reflexivo, crítico e criativo das tecnologias e da Internet".

A especialista citou dados da TIC Kids Online Brasil 2017, destacando que sete em cada dez crianças e adolescentes brasileiros realizam pesquisas na Internet. "Devemos nos perguntar se os jovens acessam o primeiro link que encontram, se comparam as informações com outras fontes, se possuem discernimento para identificar conteúdo publicitário, se compartilham e viralizam informações sem checar se são verdadeiras. Esse é um problema que contribui para o fenômeno das 'fake news'. Não nos interessa o uso apenas instrumental, mas o uso reflexivo da Internet", enfatizou Morduchowicz, que defendeu ainda políticas públicas voltadas para a formação e o fortalecimento da carreira dos docentes.

"Temos feito pouco para proteger as crianças no mundo digital e a responsabilidade de proporcionar um ambiente seguro não foi tomada com seriedade". A declaração é de Julio Gaitán, da Universidad del Rosario, na Colômbia, que reproduziu um alerta feito pelo UNICEF em 2017. Na opinião do especialista, é necessário discutir padrões éticos na Internet e cobrá-los das grandes companhias.

"Os algoritmos determinam nossas crenças, nos perfilam. É algo que não controlamos politicamente, e está dito em uma linguagem que não compreendemos. São discussões técnicas que definem nossas vidas e debatê-las publicamente é fundamental. Devemos exigir segurança no desenho dos algoritmos. A sociedade civil e academia precisam exigir que os padrões éticos sejam elevados", ressaltou Gaitán, enaltecendo ainda a importância de maior respeito e engajamento pela construção de cidadania digital e de massa crítica nos jovens.

Mediadora do debate, Regina Alcântara de Assis, diretora de Educação, Comunicação e Cultura da Fundação Roquette Pinto, complementou que "conforme garantido pela Constituição, as crianças são prioridade absoluta, dever das famílias, da sociedade e do Estado", chamando a atenção para a necessidade de equacionar o encantamento proporcionado pelas tecnologias, com os direitos. "Qual a postura de professores, gestores e acadêmicos na alfabetização ou introdução de novas linguagens e novas formas de conceber conhecimento e valores?", questionou a especialista.

A experiência da cidade de São Paulo na construção de um novo currículo a partir do envolvimento de alunos, professores e especialistas foi comentada por Alexandre Schneider, secretário Municipal de Educação de São Paulo. "No que trata do uso da tecnologia, queremos garantir direitos que estejam fundamentados no ensino de programação, incluindo-se dispositivos de hardware, sistemas e letramento digital para o uso ético das TIC, para que os estudantes saibam pesquisar e se comportar de forma criativa, com segurança e privacidade, também a partir de instrumentos da cultura digital", afirmou.

Além do trabalho na sala de aula, Schneider abordou outros eixos de atuação da Secretaria, como a colaboração para o desenvolvimento de sistemas e a abertura da base de dados e de recursos educacionais com código aberto. “Ao abrir o código, temos a possibilidade de receber colaborações para a melhoria dos sistemas. É uma via de mão dupla". Sobre a proibição do uso de celular na sala de aula, o secretário afirmou que há a intenção de liberar o dispositivo para uso pedagógico a partir de projetos desenhados pelas escolas. "Temos que usar as tecnologias para mais liberdade, para garantir que viveremos sem amarras", acrescentou.

O professor Mario Sérgio Cortella, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), discorreu sobre o conceito de servidão voluntária, destacando também o que classifica como uma obsessão evolucionista da humanidade. "Achamos que as coisas vão melhorar, mas nem sempre isso é verdade. Quando falamos do mundo digital, passamos mais tempo fazendo alertas do que tratando dos benefícios. Não estou propondo a desinvenção, o desuso, mas talvez seja necessário interromper algumas rotas. Estamos tomando mais cautelas do que alegrias, para não perdermos liberdade e autonomia".

Cortella propôs uma reflexão sobre o uso das tecnologias a partir da elaboração de duas listas com respostas baseadas em 'por causa de', elencando os benefícios, e 'apesar de', pontuando os riscos e desafios. "Temo que, neste momento, a lista de 'senões' seja superior à lista de ‘razões’. Toda vez que criamos essa condição, é necessário que sejamos mais inteligentes. Isso exigirá que coloquemos nossos esforços intelectuais para não vitimar pessoas, para que a tecnologia nos sirva, em vez de ficarmos em estado de tensão com crianças e jovens por coisas que nós adultos colocamos nas mãos deles. Nesse momento, a inteligência não pode ser artificial", concluiu.

Confira o álbum de fotos do evento em https://www.flickr.com/photos/nicbr/albums/72157703976915814.

Publicações
Com artigos de especialistas sobre temas correlatos aos estudos, além de relatório metodológico e análise dos resultados, as publicações da TIC Educação 2017 e TIC Kids Online Brasil 2017 estão disponíveis para download no endereço: http://cetic.br/publicacoes/indice/pesquisas/. A evolução dos indicadores pode ser conferida por meio de ferramenta de visualização de dados disponível em: http://data.cetic.br/cetic/.

Sobre o Cetic.br          
O Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, do NIC.br, é responsável pela produção de indicadores e estatísticas sobre a disponibilidade e uso da Internet no Brasil, divulgando análises e informações periódicas sobre o desenvolvimento da rede no País. O Cetic.br é um Centro Regional de Estudos, sob os auspícios da UNESCO. Mais informações em http://www.cetic.br/.

Sobre o Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR – NIC.br
O Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR — NIC.br (http://www.nic.br/) é uma entidade civil, de direito privado e sem fins de lucro, que além de implementar as decisões e projetos do Comitê Gestor da Internet no Brasil, tem entre suas atribuições: coordenar o registro de nomes de domínio — Registro.br (http://www.registro.br/), estudar, responder e tratar incidentes de segurança no Brasil — CERT.br (http://www.cert.br/), estudar e pesquisar tecnologias de redes e operações — Ceptro.br (http://www.ceptro.br/), produzir indicadores sobre as tecnologias da informação e da comunicação — Cetic.br (http://www.cetic.br/), implementar e operar os Pontos de Troca de Tráfego — IX.br (http://ix.br/), viabilizar a participação da comunidade brasileira no desenvolvimento global da Web e subsidiar a formulação de políticas públicas — Ceweb.br (http://www.ceweb.br), e abrigar o escritório do W3C no Brasil (http://www.w3c.br/). 

Sobre o Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI.br
O Comitê Gestor da Internet no Brasil, responsável por estabelecer diretrizes estratégicas relacionadas ao uso e desenvolvimento da Internet no Brasil, coordena e integra todas as iniciativas de serviços Internet no País, promovendo a qualidade técnica, a inovação e a disseminação dos serviços ofertados. Com base nos princípios do multissetorialismo e transparência, o CGI.br representa um modelo de governança da Internet democrático, elogiado internacionalmente, em que todos os setores da sociedade são partícipes de forma equânime de suas decisões. Uma de suas formulações são os 10 Princípios para a Governança e Uso da Internet (http://www.cgi.br/principios). Mais informações em http://www.cgi.br/.